Atum Tenório

Sobre as coisas que para aí andam e nos caem à frente.

quarta-feira, abril 09, 2008

nota: gira-discos / leitor de vinil

A designação "leitor de vinil" existe. O meu tio tinha um na fábrica, chegava pelas 7 da manhã, antes dos outros empregados e corria as pregas dos rolos antes de eles entrarem nas máquinas. O meu tio tinha passado uns anos na América do Sul e veio de lá com manias esquisitas. Uma delas era a noção que os materiais estavam impregnados com o suor da memória. Essa é a explicação do leitor de vinil. Trouxe-o com ele de lá e o que o homem fazia de facto (a minha tia dizia que o que ele fazia mesmo era chular o meu tio) era captar essas memórias que depois transcrevia num relatório para o meu tio. Acho que o que ele queria era traçar uma árvore geneológica até aos dinossauros e esta era uma forma de comunicar com esse ramo distante da “família”. Nas reuniões de Natal eu ouvia, quando o meu tio não estava presente, os acenos e as risotas mas todos se calavam quando aparecia. Por muitas idiotosincrasias (palavra do primo Matias, um peralvilho que viva num terceiro mal amanhado no Cacém) que tivesse o facto era que tinha jeito para o negócio. Quanto aos relatórios, sumiram-se no grande incêndio de 47 e depois ele decidiu voltar para a América do Sul e mandar os sanguessugas às urtigas. Recebi umas duas cartas dele ainda, acho que a minha tia assentou em Buenos Aires, gostava do convivio social por lá. O meu tio desapareceu com o leitor de vinis numa expedição fantástica no meio dos Andes.