Atum Tenório

Sobre as coisas que para aí andam e nos caem à frente.

quinta-feira, novembro 30, 2006

nota: Acção Artística Continuada no Tempo e abrangendo dois Séculos

O Sr Afonso esfregava as mãos, naquele estado peculiar do miúdo traquina que está quase a concretizar O Grande Plano. Pelo binóculo espreitava o vizinho do prédio em frente, um intelectual francês ocupado a escrever uma história da "Arte como forma de acção no séc. XX". Nunca tinha ido muito à bola com a figura, um tipo esquálido, sumido, que passava na mercearia e não dava muita conversa. Só a custo tinha descoberto o propósito da existência da personagem e, mais importante ainda, viria a revelar-se, o seu método de trabalho.

O tal fulano não era realmente um francês puro, tinha 1/4 de sangue alemão (de um Ulano que passou pela Alsácia-Lorena na guerra de 1870 e aí deixou algo de si). Àquela distância temporal o efeito da contaminação genética, ao invés de se diluir, actuava como no braço mais distante da alavanca. O francês progredia assim metodicamente pelo seu manuscrito fora, engolfando com precisão cronométrica factos e acontecimento no mais rígido sequenciamento cronológico.

O Sr Afonso, além de merceiro, cultivava um Dadaísmo Surrealista forte, da corrente dos sabotadores pelo pastiche. O outro, consequentemente, não lhe caía no goto. E decidiu agir. 30 segundos antes da meia-noite da passagem de século accionou um pequeno rádio-emissor. As ondas, viajando milimetricamente, accionaram vários dispositivos de índole eléctrica, provocando uma notória comoção no tecido da cidade. Com um segundo botão desencadeou o que viria a ser chamado "Acção de Choque" nos periódicos do dia seguinte: as ondas aplicaram-se como duas placas de reanimação por electro-choques nos mamilos sensíveis de uma jovem adolescente. O francês, boquiaberto, contemplava o tremor ondulante da cidade convulsa, agarrando-se à mesa de carvalho da melhor tempêra nacional, emprestada pela sua senhoria e secreta apaixonada.

O Sr. Afonso esfregava as mãos de contente, tinha provocado a sua "Acção Artística Continuada no Tempo e abrangendo dois Séculos" (como dizia o afixo pontilhado no ar por um avião de anúncios de fumo contratado para o efeito) e ao mesmo tempo provocado uma cisma no trabalho do francês. Como catalogar o acontecimento? Acto do séc. XX ou acção no séc. XXI? No dia seguinte, o sorriso do Sr. Afonso desapareceu. Com o susto a filha deu à luz um bébé 1/2 português, 1/2 francês e com umas réstias de sangue alemão. O Kaiser, no seu mausoléu, esboçou um sorriso.

quarta-feira, novembro 29, 2006

nota: a história do gato da vizinha

o gato comeu um sapo
ficou com um sapato
engasgado no trato

correu, correu,
saltou até que morreu
bateu a bota,
uma história de bitola torta

a assim jazia,
o gato da vizinha,
estendido no lambril
bronzeando o pernil

o pardaloco que tal viu
empoleirou-se no penico
escorropichou um poquito
e cantou de abanico

aí o gato saltou,
apanhou o mafarrico,
e engoliu-o como um petisco!

terça-feira, novembro 28, 2006

nota: ronco

o ronco cavo e gorgolejante arranhou-lhe os ouvidos. as entranhas exigiam um prato. cheio.

segunda-feira, novembro 27, 2006

nota: Krazy Kat



mais uma vez, nunca é demais. (e, já agora, isto sim, é poesia)
[Apontamento] Krazy Kat

domingo, novembro 26, 2006

nota: esfoliação

o exemplar herético de Bir Akim Al'Remo-oud que comprou ao alfarrabista da baixa não lhe durou muito tempo nas mãos. a capa em couro, gravada em relevo e com as delicadas figuras vegetais, tinha-lhe chamado a atenção de conhecedor. não regateou muito com o vendedor, um velho já seu conhecido de anos de vício. em casa, deixou-o em cima da mesa e foi fazer o jantar, antecipando o prazer nocturno do desfolhar recatado que marcou para depois do repasto. no dia seguinte, a senhora das limpezas deu com o in-folio. rápida e eficiente, decidiu proceder à esfoliação recomendada no canónico livro da Santa Sé em face de registos desconhecido e suspeitos. a operação tinha dois motivos: a eliminação de contaminantes físicos e a purificação das ideias. quando chegou ao fim, satisfeita, sobreviveram as capas e o prefácio, julgados suficientemente inócuos pela selectividade das ligações químicas do purificador do Sr. Afonso, Limpezas e Desinfecções, Lda (agente oficial do Santo Ofício).

sexta-feira, novembro 24, 2006

nota: as ideias

exactamente 2 minutos e 26 segundos. pode acreditar, fiz a experiência várias vezes e o resultado é sempre o mesmo, 2 minutos e 26 segundos. por vezes é preciso ter um relógio mais rápido ou mais lento para acertar no resultado mas pode confiar, 2:26 é o tempo que uma ideia passa do estado líquido ao estado escalfado. mais que isso começa a cozer e não se pode servir ao pequeno-almoço. a menos que, é claro, seja da escola inglesa, esses fulanos comem de tudo. claro que nem tudo fica perdido. a forma de salvar a coisa é prolongar o cozimento e deixar arrefecer. aí chega à mesa num prato com sal e a situação conserta-se. isto, desde que o potencial cliente [da ideia] seja da escola da "bica ao balcão". senão esqueça o assunto. talvez seja melhor se misturar tudo com salsa e fazer um panado. acho que se tem vendido bem ali para os lados de S. Bento.

quinta-feira, novembro 23, 2006

nota: um dia no campo

o bardinas saltou o muro caindo direito do outro lado da rua, alisou o casaco enquanto olhava para cima e depois deu à sola pela calçada abaixo. do outro lado ficou uma forquilha espetada no muro, mesmo ao lado da trajectória de saída, ainda a vibrar da fúria do Sr. Juvenal, antigo trinco dos Rodizios de Baixo e membro apreciado da filarmónica. a rapariga, essa, ficou a suspirar à janela, incómule da investida.

terça-feira, novembro 21, 2006

nota: mariazinha



Esta Mariazinha não tem nada a haver com a D.Mariazinha lá da terra. Ou melhor, não é o mesmo sítio, nem as mesmas pessoas, nem sequer a mesma região. A loja da D. Mariazinha lá da terra ficava naquele príncipio de povo que já era a caminho da saída e era uma bonita mercearia onde me davam os trocos em rebuçados quando faltavam as moedas. As contas eram rapidamente feitas em papel pardo, com um coto de lápis de carpinteiro. Depois a D. Mariazinha morreu e a loja fechou. Esta outra Mariazinha, a do pacote, fica ali ao topo da Igreja de Alvalade e tem mais luz que a outra. Não vende sabão para lavar as mãos nem dão o troco em rebuçados mas isso pode ser da idade. Não devo ter cara de quem aceite rebuçados por trocos. Mas é uma loja simpática, com anúncios a farinha que aponto para os anos 40 do séc. passado, daquela farinha que metia músculos dos putos para saltar os muros e jogar à bola. Têm chás e cafés na montra e também um grande sortido de rebuçados. Dr. Baiard e de menta também. Em suma, um sítio incontornável a caminho do mercado de Alvalade.

segunda-feira, novembro 20, 2006

nota: estremunho

estremunharam-se-me as ideias ao sair de casa, um sopro que se me bateu nas ventas e fez fechar a portinhola. vinha de chuva, água miudinha a lavar a face e a meter-se pela visão a dentro. lá a mão, irreflectida mas lesta, baixou a aba do chapéu e devolveu paz de espírito às ideias saltitonas que se acalmaram nos feixeis verticais que corriam do céu. é difícil, isto de apascentar ideias enquanto se corre no formigueiro (olha o carro, pá!), especialmente estas que queriam fazer-se de vitrais luminosos e já vinham todas embaladas, algo desprotegidas, rolando alegres até à porta da rua.

sexta-feira, novembro 17, 2006

nota: o retornado

Julião regressou do Brasil há uns anos, escamando o nome no atlântico à ida, acrescentando o ão à volta. Tal é o caso das ondas do mar que na espuma andam para aqui e para além a transportar esta humanidade perdida. Morreu pouco tempo depois, aquecendo o vinho doce à fogueira, reconfortado entre as penedias.

quarta-feira, novembro 15, 2006

nota: subitamente

isto não é importante

sábado, novembro 11, 2006

mestres: Aquilino Ribeiro

sempre me meteu espécie a história do "nariz aquilino". havia um fulano, na altura mero nome distante de lombadas de livros, com esse nome de Aquilino e o nariz devia ser dele. mas não foram as lombadas o primeiro contacto, foi mesmo aquela história da raposa, em desenhos em movimento na caixinha preta. o livro foi a seguir, deve ter ficado daí o gosto das palavras que ressabem a granito, giesta e pinheiro. de vez em quando volto às suas palavras ao sentir a falta da broa e azeite do pensamento enquanto desterrado nesta urbe luminosa de calcário e mármore.
[Apontamento] Aquilino Ribeiro