Atum Tenório

Sobre as coisas que para aí andam e nos caem à frente.

segunda-feira, junho 05, 2006

nota: movimento em três actos

um desceu a enxada, cortando a terra seca e arrastando-a para cima e para trás, num movimento sacudido. e de novo o metal mergulhou, cindindo novo torrão, ritmado e solitário trabalho banhado no suor arrancado pelo sol, única companhia da tarde. arrumou a trouxa no raiar do astro rei e desceu ao povoado, pequeno e abandonado agrupamento de granitos humanos.

dois os engenheiros vieram, rasgando a terra sobre o papel a traços de grafite, tendo atrás de si a mole informe do rugido das máquinas e dos homens. abriram a serra a dinamite, resultado da fraca força exercida pelos administradores da capital na ponta mais distante da alavanca.

três num jardim de hospital um rapaz segue um mapa. a agulha magnética oscila hesitante, falhando o norte. sofre de problemas de memória e identidade tendo sido atropelado pelo movimento constante da humanidade.

epílogo no dia seguinte, ao correr da manhã, o sacho corre os regos, guiando a água e o tumulto sujo da lama, pequena multidão de gotas, lambe e embebe-se na terra.