Atum Tenório

Sobre as coisas que para aí andam e nos caem à frente.

quarta-feira, maio 31, 2006

nota: perspectiva

O britador debruçou-se sobre a cavidade, abrasadora rotativa de alto débito angular em punho e pôs-se ao trabalho, fazendo a terra salivar e espingardar gotículas a toda a volta. Estas escapavam-se ao dispositivo de remoção que não era suficientemente potente, e muitas delas volteavam no ar, criando arco-íris contra a luz artifical do holofote, antes de desaparecerem nas entranhas de suaves paredes orgânicas.

terça-feira, maio 30, 2006

nota: o ranger das estrelas

O sistema de sintonização demorou vários anos a calibrar, uma actividade de precisão e paciência que de projecto de tempos livres se converteu em verdadeira religião. A manipulação milimétrica da frequência através do brilho das válvulas, cuidadosamente indexados aos pequenos manípulos em mogno, exigia a sua total atenção durante a noite, ligando-lhe umbilicalmente os ouvidos através dos auscultadores de espectro dinâmico. Finalmente a sua persistência foi recompensada quando conseguiu isolar o som do ranger do soalho celeste durante a grande final de berlindes cósmico.
[Apontamento] Radio Astronomy

segunda-feira, maio 29, 2006

nota: férias de luxo

os carris estenderam os travesseiros na a fofa cama de brita, esperguiçando-se languidamente sob o lento aquecer do sol de verão. durante o resto do dia gozam das massagens rápidas das grandes máquinas de rolamentos, que lhes distendem os músculos e promovem longas e infrutiferas conversas paralelas com que matam o tempo de aborrecimento.

domingo, maio 28, 2006

nota: flan

o pudim caíu ao chão, estatelando-se em ambos os eixos. a mancha amarelo-dourada pensou inquisidoramente no que lhe tinha acontecido, escorreu-se para a pá e voltou à forma. quando chegou à mesa ria-se para dentro, satisfeita com a matreirice de entrar na festa sem ter tomado banho antes...

quinta-feira, maio 25, 2006

palavra: lambareiro

correu, língua à baila, pendente e escorrendo baba, atropelou os degraus até ao chão de terra batida da cozinha, aterrando certeiro no tacho do jantar entre os risos do dono e a colher em riste da cozinheira Omessa, olha-me que este!

quarta-feira, maio 24, 2006

nota: voz da Beira Baixa


“Daqui de Penha Garcia, fala Catarina Chitas. É uma pessoa que não tem estudos nenhuns. Fui criada no campo, a guardar gado, a guardar tudo, a guardar cabras, e porcos, e vacas. E a trabalhar, a ceifar, a sachar o trigo, a arrancar o mato, a fazer tudo. A minha sabedoria é essa. Agora, de então para cá, já fui cozinheira, já fui padeira, já fui tecedeira, já passou tudo pelas minhas mãos. Só estudos da Escola é que nunca tive.”

[Apontamento] Catarina Chitas
o disco foi editado pela Associação Zeca Afonso

segunda-feira, maio 22, 2006

nota: sud express

é sempre um toque sombrio na alma, ver os amigos partir. fica a esperança do reencontro e a memória dos tempos bem passados.
[Apontamento] Radio-Mobile

quarta-feira, maio 17, 2006

palavra: piurço

Não, não estava pior que estragado. A sério. Com aquele cabelo desalinhado, voz afónica (um vociferante sem som, ideal para filmes mudos) e olhos injectados, era certo e sabido que não estava pior que estragado. A classificação científica para aquela situação era piurço. O homem estava piurço. E assim ficou durante bastante tempo, enquanto os putos se riam dele de cima do muro, galhofando as cerejas roubadas nas suas barbas hirsutas.

segunda-feira, maio 15, 2006

nota: poetas da existência



oh poetas do sublime

da estupenda gratuitidade do movimento efémero

deixai-me ir, na vossa companhia, solto e feliz

guiado pelo vosso exemplo.

[Apontamento] Calvin&Hobbes

sexta-feira, maio 12, 2006

aforismo: roupa

dois a bater na roupa, ela seca mais depressa.

nota: aterragem forçada

caíu sobre a linha do horizonte. longa e fumarenta trajectória parabólica, um roncar soluçado, ponteando o céu. o coice repecurtiu-se, abalando o equilíbrio precário da aldeia. após a surpresa, duas reacções: aqueles que deram às vilas-diogo e os outros, incautos ou temerários, que se aproximaram do bólide celeste. à distância respeitosa das coisas fantásticas viram, regurgitando dos escombros, duas figuras sairem a correr, uma atrás da outra, largando imprecações. mais tarde, ao cair da noite, era ainda possível ouvi-los, já juntos, na taberna, acamaradados pela malta através daquela incompreensível amizade que se devota
aos desconhecidos que nos aterram no quintal.

quarta-feira, maio 10, 2006

palavra: albardeiro


construtor de adufes (já há um adufe lá em casa, de vez em quando toa pela sala fora...)

terça-feira, maio 09, 2006

nota: velocidade instantânea

foi num lapso de um piscar de olhos. a cor viva deslocou-se através da retina, eliminando-se daquele segundo, editada pelo ajuste inconsciente do repousar da chávena na mesa. impossível de recuperar, a preocupação seguinte foi recuperar os dados que delimitassem o fenómeno, dando origem a duas toalhas de papel cobertas de simbologia física de utilidade duvidosa mas nem por isso menos impressionante. o resultado final não deixava dúvidas: se a velocidade instântanea foi impossível de calcular a mousse caseira desapareceu num ápice em mais uma vitória visceral da existência sobre o mundo do intelecto.

terça-feira, maio 02, 2006

aforismo: os beirões

Comem pedra e cagam brita.