Atum Tenório

Sobre as coisas que para aí andam e nos caem à frente.

terça-feira, março 29, 2005

nota: rapar

o supremo prazer da feitura do arroz-doce é, sem dúvida, o de rapar o tacho. qualquer mariola que, passando na cozinha, depare com os indícios da confecção do dito, ali assenta arraiais, não desarredando até o objecto de desejo lhe vir parar às mãos. o ritual reveste-se mesmo de privilégio, que a cozinheira têm em atenção ao repartir entre a prole: aos putos, claro, a partilha nada diz. venha às mãos e tem dono, se o outro quer que o vá comer à travessa. daí a necessidade de um poder supremo a regular a coisa, de forma a garantir a necessária equidade. ponto assente no dito ritual é a ausência de qualquer tipo de entermediários. o contacto tem de ser directo: tacho, dedo, boca; a tarefa, rápida: pela goludocide e para não deixar arrefecer porque aí, mais vale ir ao prato, com a indispensável canela. mas no tacho, quente e a escorrer, pois, pois, avia-se-lhe, um prazer de reis...