Atum Tenório

Sobre as coisas que para aí andam e nos caem à frente.

terça-feira, março 29, 2005

nota: rapar

o supremo prazer da feitura do arroz-doce é, sem dúvida, o de rapar o tacho. qualquer mariola que, passando na cozinha, depare com os indícios da confecção do dito, ali assenta arraiais, não desarredando até o objecto de desejo lhe vir parar às mãos. o ritual reveste-se mesmo de privilégio, que a cozinheira têm em atenção ao repartir entre a prole: aos putos, claro, a partilha nada diz. venha às mãos e tem dono, se o outro quer que o vá comer à travessa. daí a necessidade de um poder supremo a regular a coisa, de forma a garantir a necessária equidade. ponto assente no dito ritual é a ausência de qualquer tipo de entermediários. o contacto tem de ser directo: tacho, dedo, boca; a tarefa, rápida: pela goludocide e para não deixar arrefecer porque aí, mais vale ir ao prato, com a indispensável canela. mas no tacho, quente e a escorrer, pois, pois, avia-se-lhe, um prazer de reis...

quinta-feira, março 24, 2005

nota: front


os rubros lábios que acolheram a face (dos heróis)
não lhes esconderam...
do terrível destino,
a inutilidade

nota: perfumes

descendo o México e virando de bordo à esquerda, pela Bráz Pacheco, veio até ao nariz um cheirinho a lareira de dia de nevoeiro que foi uma lindeza. evocações de terra batida e paredes de pedra, sabor a caldo verde. depois, seguindo, chega-se a Londres e vai desta, entra por dentro, assim logo sem convite mas escancarando tudo, um toque de loureiro em flor... hmmm... pede, irrevogávelmente, um minuto de dedicada atenção. garanto.

quarta-feira, março 23, 2005

nota: assombro

estava nua, digo-lhe! saíu-me do lago mesmo assim, nuazinha! até me cairam os queixos ao chão! imaginei a dentadura postiça a cair claqueante nas ervas do caniçal - e então, que fez depois? ora, apanhei-os claro está. sorte que ela não ouviu. pensa uma pessoa que viu tudo neste mundo... se tivesse menos 20 anos... pois, para ir à pesca nas barbas do Pires está tudo bem, prás raparigas é que não dá... - então, mas diga lá, a rapariga saíu nua da lagoa e fez o quê? bem, estendeu-se na margem a secar à lua - e você ali, escondido no caniço... então, queria que fizesse o quê? espantava aquela visão? - mas reconheceu a moça? ah, isso é cá comigo, a ti já te conheço meu menino! (e nisto deu-me um piparote na tola, emborcou o resto do copito e foi-se. diacho do velho... e quem seria a rapariga? hmmmm)

postal: L., ..., 57

Amigo K.:

umas palavras apressadas que o barco vai partir. é irónico estarmos tão próximos e não te poder ir visitar mas enfim, o que tem de ser será, diz-se. de lá mandarei notícias, podes estar certo. a comissão pagar-me-á o trabalho da forma costumeira por isso agradecia que recebesses os envelopes. em Dezembro volto e aí acertamos contas. se vires o Maneta atira-o ao rio por aquela partida na Assunção.

de saída,
J.N.

terça-feira, março 22, 2005

nota: ósculo


foi no laminar instante
em que a vontade se transmutou
de imagem em...
quasi-realidade (os sonhos são, por vezes, dolorosamente reais,
contorcendo-se até existir)

que o roçar da folha de cerejeira
roçou os meus lábios
confundindo-se com o desejo
de ti.

J.N., not in Japan

segunda-feira, março 21, 2005

nota: firma

"António dos Santos sempre foi, dir-lhe-á o pessoal da terra, um homem empreendedor. Pequenas fagulhas geniais todos temos, mais cedo ou mais tarde, mas a capacidade de deitar fogo à floresta da vida não é para todos. A média fica-se por um fogacho no caniçal junto ao rio. Como sabe, a fagulha que chispou na cabeça do nosso benemérito foi a empresa de demolições com cursos para terroristas suicidas. A novidade era o uso de explosivos reais nos treinos, de forma a assegurar que na altura importante nada falha-se. E, com este método, o departamento de publicidade podia gabar uma taxa de 100% de sucesso em toda a gama de atentados porque, de facto, nunca houve nenhum. Um verdadeiro génio da terra! Estamos muito orgulhosos dele."
em entrevista dada pelo Presidente da Câmara, no jantar de homenagem a António dos Santos

domingo, março 20, 2005

nota: aviso

num banco de jardim:
Não encostar!
Ideias frescas!

sábado, março 19, 2005

nota: preparação

depois do banho sentou-se no pequeno banco de madeira, janelas corridas a olhar para fora. deixou que o sol da manhã lhe seca-se o corpo, sentindo a corrida das gotas de água em direcção ao solo, sulcando a pele. ao enfrentar o rebuliço da cidade parecia pairar...

sexta-feira, março 18, 2005

nota: drogaria

depois da mercearia, há os produtos da lavoura. aqueles que qualquer homem honrado conhece pelos serviços prestados à nação. e, conforme vierem parar à mão, aqui se vão pondo, à disposição do conhecedor. portanto, vejamos...

quinta-feira, março 17, 2005

nota: mercearia

pois, até no mundo virtual se encontram os bons produtos portugueses. não sei porquê mas é reconfortante ver companhia na prateleira:
se alguém encontrar mais coisas por essa mercearia fora, por favor, mande aviso em papel pardo!

nota: duas luas em Buenos Aires

ia eu, muito calmamente e distraído quando ouvi uma voz familiar. assim do nada, veio bater aos ouvidos. olhei, reparando nos altifalantes que alguém deixou suspensos da cabine, os do antigo modelo, ligados umbicalmente ao dispersor central. peguei-lhes e ouvi
[Apontamento] Bomba Inteligente

quarta-feira, março 16, 2005

nota: recorrência

madredeus.... são belas as palavras que jorram desta fonte.

nota: miragem

um fio fino, de fumo ondulado, foi crescendo e transformou-se num homem tisnado pelo sol. o grande lagarto viu-o da sua rocha, pesando a sua imobilidade contra a distância àquela figura. lá em baixo, o homem parou e estendeu um pequeno tapete sobre a areia. sentou-se e ficou imóvel, tão imóvel como o lagarto. já o lagarto se tinha movido para um poiso mais fresco quando nova figura se foi materializando. no fim, além da definição ganha pela proximidade, a nova figura fundiu uma lâmina de metal sobre a primeira, que silenciosamente tombou.
(onde estás?

terça-feira, março 15, 2005

nota: falta de ar




[Apontamento] makao blog

segunda-feira, março 14, 2005

nota: gargalo

o gargalo da garrafa gorgolejou um pequeno arroto

aforismo: tempo

As pessoas têm o tempo que querem para as coisas que querem.

sábado, março 12, 2005

nota: sopre lá no balão

"ora, sopre lá no balão se faz favor" disse o disco no gira-discos. "uh?" - grunhiu o melómano - "estás-me a dar baile?", "ora, pois então, bem pode ser" retorquiu a rodela. "ainda me levas um nessa fuças que é um Choque frontal" disse já chateado o nosso amigo, ao que o vinílico se queixou imediatamente "Efectivamente o senhor não tem sentido de humor". O rapaz é que não estava para aquelas e arrumou logo o assunto "Vamos mas é lá piar fininho e deixar-mos-nos desses Pós Modernos senão ala para Coimbra B" e nisto desligou a ficha e foi ouvir o rádio.
[Apontamento] GNR
mas estes gajos são larilas ou quê?!

sexta-feira, março 11, 2005

note: render da guarda

entrou e solenemente disse:
Chegou o Verão!

primeiro, o pessoal olhou-o desconfiado mas depois viu que tinha o Sol com ele, incandescente, e não houve mais alvitres. calmamente aceitaram, arrumaram as mesas e deixaram a repartição. na tarde seguinte registou-se um aumento na venda de groselha avulso.

quarta-feira, março 09, 2005

nota: luz e barulho


o interminitente da luz flurescente foi-lhe canalizado directamente para os ouvidos e o volume subido ao máximo. àquela potência, a frequência de ataque queimou-lhe todos os fusíveis, matando as inibições. no fim a sua apreciação do silêncio tinha-se modificado para sempre. e de caminho ficou viciado em ruído.

nota: limpeza

deu um tiro na cabeça. todas as terceiras quartas do mês era aquilo. a mulher conformou-se à mania, ele dizia que era para limpar as ideias. para arejar. o vizinho do quinto esquerdo preferia atarrachar o espanador ao berbequim e aí ia ele, era um ver se te avias, as ideias saiam com cera e tudo, enroladas como um grande esparguete. mas quanto àquela história dos tiros, já circulava uma petição. o homem que tivesse paciência mas desencadeava uma verdadeira cacafonia: acto contínuo ao disparo saltava a tampa aos vinte e três bebés do prédio (de idades variáveis mas de potência vocal agrupada equivalente a dois comícios dos valentes, daqueles de 75) e ninguém aguentava a gritaria. ele, claro, nem se apercebia. o efeito da regular limpeza era um vazio cerebral que chupava a atenção dos ouvidos e o punha surdo nas quatro horas seguintes.

aforismo: nódoa

mais vale lavar a toalha de novo a descobrir nódoa no dia do casório

segunda-feira, março 07, 2005

nota: prazer

na rua, o frio seco da neve, voltear de farrapos. na ponta de língua vem morrer o branco que saltou de pára-quedas, lá de cima, do longe. toque suave, imperceptível. duas horas ficou (vi-o quando passei para cima, ainda lá estava quando vim para baixo), cabeça encostada ao tronco, a caçar os volteios brancos dos cristais.

domingo, março 06, 2005

nota: dúvida

há qualquer coisa que bate, sincopada, um bater agarrado e surdo, de quem quer ir a algum lado mas tem trela pelo cachaço. será do café?

sábado, março 05, 2005

nota: broa

pelo meio da manhã, algo preguiçoso (já o sol ia acima dos prédios), desceu-se à praça, ao pão. no saco, à volta, espreitava a boa broa de milho, de que o corte da navalha ao almoço expôs o amarelo das entranhas. a côdea dura, bem cozida, por si, chegava para justificar o aguado da boca. é coisa interessante esta da broa, gosto adquirido já depois dos anos da infância, em que o regalo era o papo-seco, a desfazer seguindo religiosamente a ordem da goludice: primeiro os bicos, depois, sacado a gancho de dedo, o miolo e, debaixo do ar paternal reprovador, lá ia o resto da carcaça só para despachar. agora a broa, pão de velhos e imediatamente relegado para o lado, só chegando a barba à cara, é que apurou. foi a veia granítica das origens a aflorar à pele e a reclamar terreno. e, se é para a goludice, deixa-se o miolo do papo-seco aos putos e borda-se o naco com azeite...
[Apontamento] Museu do Pão

sexta-feira, março 04, 2005

nota: bramido

num instante, (um singular instante), encheu-se-me o peito de uma vontade de expelir todo o ar aqui contido.
nesse instante, (maravilhoso instante), vi-me na selva correndo.
nesse instante, (enigmático instante), senti-me terrivelmente vivo.
nesse instante, (revelador instante), tive todo o peso de estar sozinho nos ombros.
nesse instante, (um instante de olhos luminosos), acreditei que sozinho tinha toda a gente dentro de mim.
a espreitar detrás de uma árvore

nota: Singapura

fundeado no bar, as conversas deslizam, uma espécie de maresia que enche os ouvidos. ao canto, dois personagens acertam detalhes da viagem que um quer fazer, da viagem que o outro sabe não existir. há gentes que são como cães, passam a vida atrás da cauda...

quinta-feira, março 03, 2005

nota: regresso

mergulhou os dedos na escuridão do quarto, tacteando o ar. ao bater com os joelhos na borda da cama, inclinou-se e sentiu a surpresa nua da sua pele. correu então o corpo desnudo até à nuca, afogando-se nos longos cabelos, crispando os lábios num sorriso, embalado no rumurejar suave da respiração de quem dorme em paz.

quarta-feira, março 02, 2005

nota: mago


quando Ele toca cala-se o mundo. eu ouço. tu?
[Apontamento] My favourite things