Atum Tenório

Sobre as coisas que para aí andam e nos caem à frente.

domingo, fevereiro 27, 2005

nota: furikake

O delegado do Nipão amandou ao rapaz uns pacotes de conteúdo desconhecido. as intruções eram simples, mandatavam apenas a inclusão do dito no arroz, após a cozedura. fez-se a confiança (o moço ainda não desiludiu) e vai disto. não alimenta nem serve de conduto mas alinda o sabor. uma mistela de pózinhos secos que importam ao dito um novo avental com que se limpar as beiçolas. portanto, agora cá se fica a magicar que mais irá ele descobrir...
[Apontamento] Furikake

nota: encontro

subiu à serra, cortando atalho pelos ralos muros de granito. ao chegar, postou-se de alto, migando um pouco a paisagem antes de descer o penedio e aparecer-lhe por trás, de surpresa. sorriso largo, cumprimentos, ficou agendada a merenda. depois voltou, lesto no contentamento, deixando-a lá, a meter ovelhas em estantes.

sábado, fevereiro 26, 2005

nota: ao sul

do transístor (o desejo professava válvulas, as contingências ditaram o estado sólido), pela manhã, jorra o sol do Alentejo e Algarve: a voz do homem da rádio calcorreia as gentes, partilhando histórias com o resto do mundo. belo acordar de manhã de sábado.
[Apontamento] lugar ao sul

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

nota: nougat

olhou muito atentamente em volta: o velho chinês admirava o pudim e o respeitável senhor de suiças olhava confiante o futuro, sobressaíndo do seu fundo vermelho. costa livre, pensou! rasgou o invólucro amarelo e

CHOMP! CHOMP! CHOMP!

abarbatou-se ao nougat em três dentadas. no ar, volteando vagorosamente, ficou o celofane amarelo, demasiado aturdido para ripostar.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

nota: despertador

está vivo? estás VIVO? ora porra, acorda!

e isto foi quando fui para lá. à volta ainda estava a berrar para a estátua que nem um possesso. há pessoas com uma energia...

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

nota: aflorar

num ligeiro instante
(sorriso iluminado)
um toque suave

terça-feira, fevereiro 22, 2005

nota: desencontros


(em movimento lento)
encontro
desencontro
tango
[Apontamento] in the mood

domingo, fevereiro 20, 2005

nota: mensagem

"o homem-mensagem desceu de caiaque vindo da floresta. viu-o chegar já ao fim do dia, cansado de remar. já tinha ouvido falar desses homens, escolhidos para transportarem em si mensagens dos chefes tribais, sendo considerados por todos como intocáveis. depois de descer, vi-o fazer perguntas na margem; percebi que me procurava. tatuado nas costas, o texto era claro: devia partir até às próximas chuvas. olhei o rosto inexpressivo e pedi que o fizessem esperar, dando-lhe comida e dormida: dar-lhe-ia a minha resposta no dia seguinte. arrastei essa noite o velho tatuador da aldeia para a minha cabana e fi-lo escrever em mim a resposta. foi assim que no dia a seguir arranquei uma expressão de surpresa daquele sacana baixinho e, um mês mais tarde, do seu chefe. tinha-me tornado um homem-mensagem e logo, intocável. ahahah"
história recolhida na foz do Hui-Qui, 1903

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

nota: turbilhões


viu-se arrastado para dentro do cubo pelo dedo grande do pé. estranhamente, no meio de todo aquele rebuliço de números sentiu-se confortável, demasiado deslumbrado para pensar em sair dali.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

nota: imagem

andava para aqui à procura de uma perspectiva de Lisboa quando encepei com isto e, subitamente, foi uma porta aberta para a loja dos doces. resultado: dor de barriga.
[Apontamento] PhotoBlog

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

nota: tap

tap
taptaptaptap!
tap tap TAP (taptaptaptap)
(música de teclado)

nota: bulir

"estou a bulir.", disse-me. bulir? bulir, pensei. bulir, ebulir. ebulir, efervescência. efervescência, calor. calor, trabalho. ah!, agora sim, faz sentido.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

nota: caldo verde

desceu com passo descuidado a vereda em direcção a casa. moço de fora, jantava em casa uns arranjos descuidados na cozinha ou, em dias de mais sorte, algum petisco trazido da terra. nesse dia teria uma surpresa. quando o caldo verde veio à mesa, vindo lá de cima entre as curvas da autoestrada, acondicionado por mãos extremosas, logo lhe deitou a colher. o efeito foi imediato: um sabor rico e cheio, esquecido no sotão da memória, provocou-lhe tal reacção Pavloviana que se lhe aguava a boca, apesar de cheia! quando acabou, ainda estava em extâse...
[Apontamento] caldo verde

nota: 32

explica-me trinta e duas coisas. aquilo saíu com a imperiosidade de um miúdo de cinco anos a puxar as calças do pai. olhei de lado hmmm? explica-me trinta e duas coisas! porquê trinta e duas? porque às quatro tenho de ir lanchar.

domingo, fevereiro 13, 2005

nota: telegrama

Vem depressa STOP
Bolinhos a sair STOP
Há geleia STOP
Beijos NOSTOPNOSTOPNOSTOPNOSTOPNOSTOP

nota: silêncio

de cabeça apoiada nos braços, emudeceu lentamente, deixando-se ir. ao pousarem-lhe uma manta sobre os ombros, enroscou-se no sonho, fazendo de mim almofada.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

nota: malmequeres


de repente deu-me cá uma vontade de estar na terra a desfazer malmequeres que não te digo nada...
[Apontamento] malmequeres

nota: pontas

correu até ao fundo das pontas dos dedos, eriçando o cabelo em suaves ondas eléctricas. quando lá chegou, puxou suavemente em direcção ao sol, expandiu o tórax no jardim, esvaziando-se em seguida. após isto olhou satisfeito em volta e voltou à leitura.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

nota: viagem

gostei dos carneirinhos a correr sobre a manta de retalhos. mas o melhor, melhor, foi redescobrir o olhar da pastora ao regressar.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

postal: B., ...7

K., meu amigo!

Acabo de chegar a B.. Ainda se sentem os buracos dos obuses nas paredes mas do meio dos escombros à flores a crescer. Parece que toda a gente se anda a decidir a acordar e outros, mais dinâmicos, não acordaram ainda mas decidiram tirar o melhor partido de um sonho extraordinário. Obrigado pelo queijo da serra, o pessoal adorou (como se não soubessemos ;)). Quanto à rede, está tudo a andar, devemos ter os planos dos retransmitores prontos até ao final da semana. Depois, logo se verá.

Um abraço, o teu amigo,
J.N.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

nota: nuvens

era singular. aflorando as pontas dos dedos, pairando acima da pele (um, dois milimetros), sustinha nuvens azuis eléctricas de desejo.

nota: fechado

o cartaz pendia na esquina, mascando descuidadamente uma palhinha. Quando os passantes espreitavam a montra, olhava de lado para eles, via se mereciam o esclarecimento e se tal dizia-lhes que estavam fechados, que voltassem para a semana. De forma geral as pessoas assustavam-se com ele, poucos estavam habituados a um cartaz com personalidade e ele já estava a ficar farto daquilo. Até ao dia em que decidiu colar-se à janela e deixar de dirigir a palavra a quem quer que fosse.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

nota: lastro

alguém lhe acendeu uma fogueira por baixo. o ar quente, enfunando o capote, facilmente o pôs no ar, a pairar uns centimetros acima do solo. "eh rapaz!", pensou, "se não arranjar lastro nunca mais preciso de limpar os sapatos à entrada"

nota: subitamente

o Desejo. ergueu-se e olhou em volta [movimento de rotação]. deslizou a língua pela ponta dos lábios, inquisitivo. onde?, perguntou-se. ah! [sorriso]. deslizou até à sala [soalho de madeira, meias de lã grossa] e espreitando-lhe por cima dos ombros [promontório predilecto], apoiou neles o queixo e enterrou-se-lhe nos cabelos [viagem à floresta negra, um ano antes]. dois minutos mais tarde estavam os dois a fazer bolos de chocolate na cozinha [as ideias dele cresciam como fermento. ela dava-lhes consistência. no fundo coziam bem na mesma forma.].