Atum Tenório

Sobre as coisas que para aí andam e nos caem à frente.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

nota: carris

trazia um olhar febril. não era doentio, mas era febril, um toque nervoso de pontas de dedos. "sabes", disse, "já estiveste à beira de um precipício? um daqueles grandes, dos filmes? e estás asiim, a andar muito depressa à beirinha e não queres cair dali abaixo, e só podes continuar a correr e há uma força invisível que te puxa e para escapar tens de acelerar e... é pá, não sei, achas que os comboios se têm de limitar aos carris?" aí levantei os olhos para o que ele estava a fazer: tinha uma colher de galão na mão e alinhava-a cuidadosamente com a borda da mesa. "pode parecer-te absurdo mas de repente veio-me à ideia que a partir de certa idade as pessoas se transformam em comboios, traçam uma linha e por lá vão, dê isso na parede que der.". pensei um bocado e saí-me com um "hmmm, então uma forma de amizade é fazer saltar carris" e aí ele fez um sorriso agradecido e encomendou uma explosão.