nota: creme
ao descer a rua, quatro táxis passaram em rápida sucessão, deixando-lhe um rastro creme na retina. quando lhe passou o dedo sabia a baunilha.
Sobre as coisas que para aí andam e nos caem à frente.
ao descer a rua, quatro táxis passaram em rápida sucessão, deixando-lhe um rastro creme na retina. quando lhe passou o dedo sabia a baunilha.
"o que eu gosto é de beijos de coelho. quando chegas muito depressa e esmagas completamente os lábios com os lábios e desapareces aos saltinhos pela rua abaixo antes que haja reacção." disse, de olhos brilhantes. "cá para mim tu vês é demasiada televisão. nem sequer tens bigode!"
nessa noite, após ter arrombado a porta da sala e se barricar lá dentro, fez uma ligação directa ao cabo de entrada do emissor rádio, pondo-se a falar em frequência modulada. a seguir, aumentou a potência até à linha vermelha, tornando-se iridiscente. nesta fase já não precisava de falar, a flutuação eléctrica dos pensamentos chegava para produzir a emissão. quando acabou, saltou pela janela e foi jantar a casa da namorada.
trazia um olhar febril. não era doentio, mas era febril, um toque nervoso de pontas de dedos. "sabes", disse, "já estiveste à beira de um precipício? um daqueles grandes, dos filmes? e estás asiim, a andar muito depressa à beirinha e não queres cair dali abaixo, e só podes continuar a correr e há uma força invisível que te puxa e para escapar tens de acelerar e... é pá, não sei, achas que os comboios se têm de limitar aos carris?" aí levantei os olhos para o que ele estava a fazer: tinha uma colher de galão na mão e alinhava-a cuidadosamente com a borda da mesa. "pode parecer-te absurdo mas de repente veio-me à ideia que a partir de certa idade as pessoas se transformam em comboios, traçam uma linha e por lá vão, dê isso na parede que der.". pensei um bocado e saí-me com um "hmmm, então uma forma de amizade é fazer saltar carris" e aí ele fez um sorriso agradecido e encomendou uma explosão.
no outro dia ouvi-o resmonear contra a nortada que não vinha. contra a falta da água a bater obliquamente (mais violentamente que no poema) contra a face, escorrendo-se pelo capote abaixo, pendurando os dedos líquidos pelas abas do chapéu abaixo. tenho a certeza que o ouvi resmonear qualquer coisa assim, que lhe tinham trocado as voltas e lhe faltava um pouco de Inverno (presumivelmente surripiado do bolso nos transportes públicos). depois percebi melhor: a chuva estava atrasada e tinham combinado ir ao cinema.
a pasta verde entrou acompanhando o arroz, espalhando picante pelo caminho. ao entrar na boca, desceu, saltou de trampolim à entrada da garganta, deu a volta para cima (flic-flac atrás) e subiu pelo nariz acima, comichando todo o caminho até à saída. o resultado foi um sonoro "AHHHHHHHHHHH" de satisfação.
Sentado no autocarro sentia a cadeira respirar, animada pelos joelhos do passageiro de trás.
o gato saíu com três carneiros. espreguiçou-se no meio da lã, fazendo cócegas nos amigos. quando se separaram deixaram um monte de gargalhadas debulhadas à volta da mesa do café.
se bi é dois, li é fluido. espesso. mas em tons de amarelo escorreito e luminoso. lá por casa a minha mãe tem um licor num jarro de vidro. sabe a uma laranja com sumo de sol e ligeiro toque de espírito branco. marcha muito bem nas noites de inverno.
no meio da febre e das dores, pequenas alfinetadas nos membros, fui visitado pela imagem de um homem nu a correr sobre a neve.
Amigo K.:
lentamente, enquanto trabalhava, empregnava pedaços de papel mole com partes de si mesmo, escorrendo-se para o caixote do lixo.
enquanto vadeava, encepou numa cassete esquecida no chão. quando chegou a casa o leitor animou-se e ele ficou a viajar no sofá, na companhia de dois americanos desconhecidos.
sentou-se no banco e esteve meia-hora a ver folhas voltear. subitamente veio-lhe um ataque de consciência e foi à procura da bilheteira. certamente tal espetáculo era pago. ficou deveras surpreendido quando descobriu que lhe davam tudo aquilo à borla...
já viram um homem satisfeito? mas daqueles genuinamente satisfeitos? cruzei-me com um à pouco. descobri que tinha tido um encontro com um óraculo grego. e, incompreensível, para quem tem fama de dar más notícias recebeu um bom vatícinio. decididamente não se acabam as surpresas...
o finório escondeu o Tenório. disse que foi visitar pastores mas eu bem o vi, deslizando a mão detrás da estante e escondendo o dito. a mim, ninguém engana! e depois, despudorado, piscou-me o olho à saída!
foi uma grande empresa mas quando chegou ao fim tinha palmilhado a ilha toda e deu-se por satisfeito.
acordei sombrio.
Dormias tão bem parecias do céu, cabeça tapada e pernas ao léu Quem dorme assim não pode ser mau Agora os rios correm para dentro de nós Choras com tudo e matas por nada
mediu a distância, pôs-se em posição e saltou. a meio do caminho, claro está, a folha levou um piparote do vento, mudou de trajectória e foi para outro lado. ele, muito pesado, ainda volteou no ar mas debalde, tudo o que encontrou foi o chão (cumprimentaram-se efusivamente e despediram-se logo a seguir, que ele tinha de a agarrar). três grande saltos deu por entre as ervas (ela tinha-se decidido a fazer-lhe fosquinhas de entre as árvores) antes de-VUUUSSSSSSHHHH-quase colidir com uma bicicleta. o dono do velocipede fez uns esses mas lá se indireitou, entrando a direito no lago. ele é que não ficou para ver, continuou atrás dela a todo o vapor (nesta altura já fumegava, apitando entre as abas do chapéu) até; [agora sim] estender a mão e a encostar contra uma árvore (australiana, disseram-me mais tarde). respirou fundo, alisou-a contra o peito, dobrou-a em quatro e pô-la no bolso do casaco. quando se virou levou uma chapelada do dono da bicicleta que escorreu do lago pelo bolso das calças.