nota: krazy kat
o tijolo progrediu pelo ar à velocidade de 3 quadradinhos por acerto, única presença constante numa paisagem em movimento. quando atingiu o alvo, foi passear para outro lado.
Sobre as coisas que para aí andam e nos caem à frente.
o tijolo progrediu pelo ar à velocidade de 3 quadradinhos por acerto, única presença constante numa paisagem em movimento. quando atingiu o alvo, foi passear para outro lado.
quando deixou de descobrir desenhos nos pequenos cubos da calçada eram horas de almoçar.
há este sonho de ondular o corpo num gigantesco lago azul, ripado pela luz brilhante do sol. a cabeça flutua, batida suavemente pela água e o calor. e não há nada mais que essa batida suave de uns lábios que mergulham em mim.
ping, ping, ping
esteve uns bons minutos a exercer a memória na crista de uma orelha enquadrada a negro, de um lado, do outro, tom de pele, e nos altos e baixos dos ornamentos que por ela desciam. no fim sorriu e decidiu-se a trabalhar.
o cabelo era um verdadeiro maelstrom, visto de qualquer lado, redemoinhando sobre si próprio em piruetas fantásticas. ao sair do barbeiro lá vinha composto, depois de árdua luta em que, por pena do pobre homem, se deixava acamar e alinhavar. mas mal cortava a esquina começava de novo a despontar, mostrando a natureza rebelde, à maneira das urzes que crescem anárquicas entre as penadias.
distensão dos músculos, para fora, em cima do equilíbrio precário de uma cama de rede.
atravessou 4 carruagens do metro executando uma contradança com os varões da qual só ele ouvia a música.
há uma agulha qualquer na cabeça de cada um que aponta um norte imaginário (pelo menos, é cá uma das minhas teorias, gostava de sublinhar antes de prosseguir). repara, o moço a maior parte das vezes anda para aí a apascentar nuvens de pensamentos, meio distraído com o mundo. depois passa ali ao lado das estantes dos livros, vê a rapariga e é um vê se te avias, desfaz-se o rebanho, acaba-se-lhe a paz, fica em alvoroço. logo, obviamente (este foi um "obviamente" que nunca percebi muito bem), foi a agulha que se desnorteou! eu já lhe recomendei que andasse com um calhau no bolso, para ver se flutuava menos, mas conhece-lo, gosta muito das suas nuvenzinhas. tenho de admitir, no entanto, que assim vai poupando na sola dos sapatos...
pequenos grãos de chumbo puxavam-lhe as sobrancelhas para baixo enquanto tentava trabalhar.
... distraidamente, enquanto se esperguiçava, correu os dedos nos músculo do antebraço e surprendeu-se com a sua forma. quando tentou apanhar a sensação de novo ela tinha-se ido para outro lado, largando apenas um rasto de recordação atrás.
Amigo K.:
tinha uma voz grave, temperada a estalidos de estática. era preciso ligar o rádio 5 min antes do programa, parecia um daqueles assados que precisam do seu tempo no forno. aqui eram as válvulas, electrónica de luz quente e aconchegante que se ia exercitar para a borda do campo antes de entrar em jogo. e a entrada era um crescendo, uma introdução de pano a levantar no teatro. mas, dizia eu, aquele fulano a quem nunca vi a cara mas muito senti a voz, mergulhava através da noite, trazendo histórias distantes. e era fascinante, nesse verão distante e solitário, ter aquela companhia, regada a música e palavras...

saia rodada, uma belissima saia rodada, encimada por uma face, lá no topo, depois da blusa, de uma inocência que não sabia o que fazer dos lábios. ali, no topo do palco, os requebros todos, traduziam-se na voz, quando ela se saía com o du-bi-du-du no clube para os fulanos ricos, lá no Havai...
com os cálculos que tinha nos rins fez um ábaco. era fácil de transportar e assim fazia contas de barriga. ria-se da proeza mas de vez em quando lá se contorcia de dores. isto acontecia especialmente quando tinha de adicionar o IVA...
da nudez do grito, infantil, admitamos, que lançou ao mar, ficou a singela filigrana, uma espuma que lhe veio cobrir os pés. um lençol prateado (era noite, mas alguém tinha ligado a lua) de toque frio. amanhã, quando o braço nu te envolver a cintura, lembra-te da promessa desta noite ao que ela, desenlaçando-se e rindo disse não sabes que nada é para sempre?
o mais da vezes, ao desfazer uma miragem, o que sobrevem é a desilusão. daí quase ninguém ter percebido porque é que desta vez ele soltou aquela enorme gargalhada. e posso assegurar-vos que estava na plena posse das suas faculdades mentais... muito, muito bizarro. mas da fronte sumiu-se-lhe a marca cinza das preocupações.
- é uma água das pedras. o empregado do bar tirou o escopro, assentou o bloco granítico em cima da mesa e começou a extrair o líquido para o copo. não, não, dessa não. uma água das pedras, mas pedras salgadas! o empregado parou, guardou o material e voltou para dentro. quando regressou desculpou-se mas tinha-se acabado o sal gema, agora só em garrafa.
quando bateu o martelo, o som da nota solitária lançou pequenas reverberações pelas cordas adjacentes, como uma pequena brisa empinada nas espigas de trigo. a simpatia simbolizada surpreendeu-o, desenhando-lhe um sorriso. o resto da manhã foi então mais suportável.
Ti Manel marchante tinha um penante,
um dia, encontrei uma miúda com nariz de tubarão. era gira, e dançamos juntos algumas vezes. entretanto, foi nadar para outro lado. de vez em quando tenho saudades dela. gostava do seu riso...
desde os 2 anos, quando passou junto do televisor, que ficou viciado em electricidade estática. ao descobrir as pilhas de copos plásticos no tabuleiro da cantina teve uma overdose e só o reanimaram à força de tabasco verde...
preparava o ritual cuidadosamente, alinhava a agulha no disco, enchia o peito de satisfação com as primeiras notas e todos sabiam que não o deviam incomodar na próxima meia-hora. quando o Rigolleto soava, era hora de a lâmina descer pela face abaixo, limpando o creme e seccionando os pêlos. depois de todo aquele ritual ia sempre dar um pequeno passeio, apreciando a brisa da manhã a afagar-lhe a face lisa.
fechou os olhos e segurou com força a manete: empurrou-a depois até ao fundo, subitamente, e largou. quando abriu os olhos de novo , a visão súbita das nuvens subiu-lhe à garganta com o almoço, mas conseguiu conter-se. do nariz saíu porém uma bolha de sabão (antes de subir para a maquineta tinha estado a polir os pelos, a mãe tinha-lhe dito para ir apresentável numa ocasião tão memorável...)