Atum Tenório

Sobre as coisas que para aí andam e nos caem à frente.

domingo, outubro 31, 2004

Nota: licor

sentou-se à mesa, gestos vagorosos, pesados pelos pensamentos. ao ar interrogador de detrás do balcão apontou a garrafa e negou o gelo oferecido. quedou-se então, cofiando a barba nascente, bebendo e interrogando a chuva.
[Apontamento] Licor Beirão

sábado, outubro 30, 2004

Nota: decisão

stand up or give up

era a pergunta pendente no cigarro que não tinha. atrás dela, as condições eram claras, um tudo ou nada reflectido a prata no dourado dos seus cabelos. não era alta, a miúda, mas do topo dos degraus fazia levantar os olhos. puxei o chapéu e entrei com ela.

sexta-feira, outubro 29, 2004

Nota: ondular

O ondular dos corpos esguios lembrou-me da época africana de Mendes, como relatada no café, depois de três cervejas e meia, no fim dessa tarde de 83. De facto, os putos que éramos riram-se por dentro da história dos Masai e das suas danças mas hoje, apoiando o corpo sobre o peso da amurada da praia, não consigo deixar de pensar naquele homem que reviveu durante alguns minutos uma aventura à frente dos catraios imberbes que éramos. Ahhh, cada idade com a sua magia...

segunda-feira, outubro 25, 2004

Nota: música

"entrando de mansinho, a mancha cresce indelevelmente, fixando-se no cérebro como uma pátina. no final vivemos com ela, felizes, citando recordações." mas de que é que ele fala? - sorriso - já deixaste os sapatos dançarem por ti? eu sim, e eles levaram-me até à manhã... pronto, apaixonou-se, estamos lixados... Não, Não, manda-lhe um carolo, pode ser que acorde!

sexta-feira, outubro 22, 2004

Nota: beat

thump, thump, thump

adivinhou, no bater das botas no soalho, um ritmo que não esperava. depois descalçou-se e experimentou só em meias. ficou satisfeito quando deixou apenas a bota do lado esquerdo, porque o atacador do outro lado descaía...

thumthumpthump

quinta-feira, outubro 21, 2004

Nota: acordar

nosúbitoabrirdos:OLHOS, deu de caras com a alva brancura do tecto, cruzado na horizontal do pontilhado dos estores. pensou muito devagarinho e esperou, observando curioso, o arrastar do resto do corpo para a consciência.

Nota: perplexidade

a verdade é que saltou a noite sem fechar os olhos. o jantar trouxe o encontro surpresa: um baque por dentro, respiração acelerada. depois a esperada desilusão.
[respirar fundo]

que se lixe, pensou às tantas, para a próxima tiro uma laranja.

terça-feira, outubro 19, 2004

Nota: obliquidade

é um atributo da chuva. do ângulo da perpendicularidade com a característica líquida, do realçar das formas femininas num dia quente. o tecido, moldando o corpo, escorre pelos olhos abaixo, queimando as pontas dos dedos com a vontade de tocar, apesar da distância.

Nota: poças de água

naqueles 50 metros acertou em todas as poças de água. o pai, embevecido, reconheceu-se no rebento para desgraça da mãe que levou os dois pelas orelhas obrigando-os a lavar as calças.

depois de esplungar, um bom chocolate quente há que tomar.

Diálogo um

"
- Tenho-lhe um pó! Nem o posso ver à frente!
- Então porquê?
- Sou cego...
"

segunda-feira, outubro 18, 2004

Rima iii

Na penugem da manhã vogavam folhas de hortelã.

Nota: colunas

quando os olhos deram com elas já o corpo tinha feito contacto. um perito diria que eram gregas mas do chão, em contra-picado, o queixo descaído apenas conseguia balbuciar desculpas de maravilhamento...

Nota: pelo

branco, imaculadamente branco, com uma mancha ao meio, em perfil hidrodinâmico e forma humana. resultado, sobrecarga sensorial...

domingo, outubro 17, 2004

Nota: nougat

Desnudou a transparência amarela com todo o cuidado, olhou com curiosidade fingida para a barra e abocanhou-a com gosto. Ahhh, energia sólida, pensou, e depois alinhou nos carris e disparou pela pista fora.
I'm a solid fuel rocket propellerrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

berrou. quando bateu na parede foi mesmo em cheio, disseram as testemunhas. e a prova é que se puderam ouvir passarinhos durante duas semanas

sábado, outubro 16, 2004

Nota: ursa polar

Cabelo negro alinhado ao lado, detrás dos agora clássicos óculos de massa rectangulares, os olhos passaram por mim sem notar. Os meus ficaram sobre ela, impressionados pelo conjunto embrulhado num longo sobretudo branco. Pouco depois, o reconhecimento parcial, ficou Ursa Polar, tratamento carinhoso e admiração secreta. Há pessoas que se cruzam como comboios.
[Apontamento] Microaudiowaves

quarta-feira, outubro 13, 2004

Nota: encontro de rua

bom dia, ia, ia, ia!
(
"
- para onde?
- ah, ali, beber um copinho, jogar dominó
- pois, pois, vejo. servem bons pasteis de bacalhau
- vejo que o amigo é conhecedor
- a minha mulher sempre me pôs na rua, religiosamente, às 21.30, portanto, como vê...
"
)

terça-feira, outubro 12, 2004

Nota: bolachas de aveia

crunch crunch crunch CRUNCH
(depois olhou, de lado, como quem acabou de fazer uma pequena partida. acabamos por nos rebolarmos no chão a rir. quando a mãe chegou bateu significativamente na testa com o indicador e encolheu os ombros)

Nota: cabelo

Sentado no barbeiro via os cabelos cairem sobre a toalha e esperava a qualquer altura que se começassem a contorcer. Mas eles lá continuaram sossegados, sem sinal de rebelião...

segunda-feira, outubro 11, 2004

Nota: french press


depois de os esmagar cuidadosamente nos dentes rotativos do pinhão de aço, fez um canudo com o Le Monde Diplomatique e mudou-os para lá. Verificou cuidadosamente a temperatura da água e verteu-a sobre o arranjo ficando perplexo com o resultado. No dia a seguir, no café, quando contou a aventura, é que lhe explicaram o que era uma "french press"...

sábado, outubro 09, 2004

nota: lagoas

na ponta de cada uma das chinelas ondulava uma pequena lagoa à brisa da manhã.

sexta-feira, outubro 08, 2004

nota: laranjas

disse-lhe, com muita candura e um olhar de quem origina nuvens, que não acreditava nessas histórias de almas gémeas e metades de laranjas. não fiquei bem a perceber se ela gostou de ouvir (estava três mesas à frente e entre o galão e o pastel de nata há coisas que se perdem) mas não me pareceu grave. depois vi-o polvilhar muito calmamente o seu pastel, soltar uma gargalhada e dar-lhe uma dentada. subitamente, parou e ficou sério mas aí, já eu sabia que tipo de pessoa ele era. e sorri para mim. há estas almas que andam por aí com a leveza de quem sabe a solidez que transportam consigo. "meu amigo", pensei, "boa sorte, não te deixes comer como um gomo".

quinta-feira, outubro 07, 2004

Nota: ursos

os ursos gostam de gordura, costumavamos dar-lhes essa parte do chouriço no inverno. em 76, depois do grande nevão, eles agradeceram e só comeram o parvo da aldeia.
in há dias que ninguém percebe o que digo

quarta-feira, outubro 06, 2004

Nota: giradiscos


O ritual consistia em diminuir as luzes e muito calmamente deixar cair a agulha. Depois, no breve espaço do silêncio riscado em estática ir-se sentar no sofá. No verão, gostava de apreciar o fim da tarde, de janelas abertas para o fresco, ouvindo os discos da estante de baixo. Constante, era mesmo o embalar da agulha, sulcando os prados de som.

Nota: ervilha

Daquela vez o plano saíu-lhe pela culatra: a ervilha saíu da ponta da colher, fez um flic-flac e empoleirou-se na ponta da barba. A miúda, do outro lado da mesa, escangalhou-se a rir e tiveram de passar a tarde a juntar as peças.

Rima ii

Eu sou pequenino, não sei fazer nada, vou para a cozinha comer MARMELADA !!!
rima infantil

segunda-feira, outubro 04, 2004

Nota: fraga

Poisou o albornoz e tranquilamente assentou as rijas nádegas no maciço granítico. Abaixo, caindo impetuosamente, a água batia os seixos até à macieza de almofadas. Respirando fundo, trinchou o queijo e por ali se quedou, largos minutos, esperando o fim da tarde.

sábado, outubro 02, 2004

Nota: floresta

No eriçar causado pela arajem, notava-se, de forma bastante peculiar, a diversidade de cor que lhe decorava o baixo queixo. Aí, a profusão policromática saturava a mente dos partizans do minimalismo das escalas reduzidas, levando alguns a meios extremos. Ele, inconsciente, continuava no entanto a passear a cara na sua forma habitual pelas ruas da baixa.

Nota: naifas

Ao entrar na tasca ergeu a sobrancelha meio milimetro. Ao fundo, de costas, reconheceu-o imediatamente. Pelo olho passou um reflexo de tungestnio, e a mão baixou ao bolso, tocando o cabo de madeira. O dono, detrás do balcão, conhecia a querela. Saíu, cortando o ar tenso com o seu volume rombo e postou-se-lhe à frente. Na troca de olhares assunto adiou-se para outra altura. O puto, esse, nem soube do que se safou.
[Apontamento] A naifa