Nota: licor
sentou-se à mesa, gestos vagorosos, pesados pelos pensamentos. ao ar interrogador de detrás do balcão apontou a garrafa e negou o gelo oferecido. quedou-se então, cofiando a barba nascente, bebendo e interrogando a chuva.
Sobre as coisas que para aí andam e nos caem à frente.
sentou-se à mesa, gestos vagorosos, pesados pelos pensamentos. ao ar interrogador de detrás do balcão apontou a garrafa e negou o gelo oferecido. quedou-se então, cofiando a barba nascente, bebendo e interrogando a chuva.
O ondular dos corpos esguios lembrou-me da época africana de Mendes, como relatada no café, depois de três cervejas e meia, no fim dessa tarde de 83. De facto, os putos que éramos riram-se por dentro da história dos Masai e das suas danças mas hoje, apoiando o corpo sobre o peso da amurada da praia, não consigo deixar de pensar naquele homem que reviveu durante alguns minutos uma aventura à frente dos catraios imberbes que éramos. Ahhh, cada idade com a sua magia...
"entrando de mansinho, a mancha cresce indelevelmente, fixando-se no cérebro como uma pátina. no final vivemos com ela, felizes, citando recordações." mas de que é que ele fala? - sorriso - já deixaste os sapatos dançarem por ti? eu sim, e eles levaram-me até à manhã... pronto, apaixonou-se, estamos lixados... Não, Não, manda-lhe um carolo, pode ser que acorde!
thump, thump, thump
nosúbitoabrirdos:OLHOS, deu de caras com a alva brancura do tecto, cruzado na horizontal do pontilhado dos estores. pensou muito devagarinho e esperou, observando curioso, o arrastar do resto do corpo para a consciência.
a verdade é que saltou a noite sem fechar os olhos. o jantar trouxe o encontro surpresa: um baque por dentro, respiração acelerada. depois a esperada desilusão.
é um atributo da chuva. do ângulo da perpendicularidade com a característica líquida, do realçar das formas femininas num dia quente. o tecido, moldando o corpo, escorre pelos olhos abaixo, queimando as pontas dos dedos com a vontade de tocar, apesar da distância.
quando os olhos deram com elas já o corpo tinha feito contacto. um perito diria que eram gregas mas do chão, em contra-picado, o queixo descaído apenas conseguia balbuciar desculpas de maravilhamento...
branco, imaculadamente branco, com uma mancha ao meio, em perfil hidrodinâmico e forma humana. resultado, sobrecarga sensorial...
Desnudou a transparência amarela com todo o cuidado, olhou com curiosidade fingida para a barra e abocanhou-a com gosto. Ahhh, energia sólida, pensou, e depois alinhou nos carris e disparou pela pista fora.
Cabelo negro alinhado ao lado, detrás dos agora clássicos óculos de massa rectangulares, os olhos passaram por mim sem notar. Os meus ficaram sobre ela, impressionados pelo conjunto embrulhado num longo sobretudo branco. Pouco depois, o reconhecimento parcial, ficou Ursa Polar, tratamento carinhoso e admiração secreta. Há pessoas que se cruzam como comboios.
bom dia, ia, ia, ia!
crunch crunch crunch CRUNCH
Sentado no barbeiro via os cabelos cairem sobre a toalha e esperava a qualquer altura que se começassem a contorcer. Mas eles lá continuaram sossegados, sem sinal de rebelião...
disse-lhe, com muita candura e um olhar de quem origina nuvens, que não acreditava nessas histórias de almas gémeas e metades de laranjas. não fiquei bem a perceber se ela gostou de ouvir (estava três mesas à frente e entre o galão e o pastel de nata há coisas que se perdem) mas não me pareceu grave. depois vi-o polvilhar muito calmamente o seu pastel, soltar uma gargalhada e dar-lhe uma dentada. subitamente, parou e ficou sério mas aí, já eu sabia que tipo de pessoa ele era. e sorri para mim. há estas almas que andam por aí com a leveza de quem sabe a solidez que transportam consigo. "meu amigo", pensei, "boa sorte, não te deixes comer como um gomo".
os ursos gostam de gordura, costumavamos dar-lhes essa parte do chouriço no inverno. em 76, depois do grande nevão, eles agradeceram e só comeram o parvo da aldeia.
Daquela vez o plano saíu-lhe pela culatra: a ervilha saíu da ponta da colher, fez um flic-flac e empoleirou-se na ponta da barba. A miúda, do outro lado da mesa, escangalhou-se a rir e tiveram de passar a tarde a juntar as peças.
Poisou o albornoz e tranquilamente assentou as rijas nádegas no maciço granítico. Abaixo, caindo impetuosamente, a água batia os seixos até à macieza de almofadas. Respirando fundo, trinchou o queijo e por ali se quedou, largos minutos, esperando o fim da tarde.
No eriçar causado pela arajem, notava-se, de forma bastante peculiar, a diversidade de cor que lhe decorava o baixo queixo. Aí, a profusão policromática saturava a mente dos partizans do minimalismo das escalas reduzidas, levando alguns a meios extremos. Ele, inconsciente, continuava no entanto a passear a cara na sua forma habitual pelas ruas da baixa.
Ao entrar na tasca ergeu a sobrancelha meio milimetro. Ao fundo, de costas, reconheceu-o imediatamente. Pelo olho passou um reflexo de tungestnio, e a mão baixou ao bolso, tocando o cabo de madeira. O dono, detrás do balcão, conhecia a querela. Saíu, cortando o ar tenso com o seu volume rombo e postou-se-lhe à frente. Na troca de olhares assunto adiou-se para outra altura. O puto, esse, nem soube do que se safou.